Andy Bell fala sobre novo álbum do Erasure e lembra de show no Brasil com David Bowie - Ligado à Música | Ligado à Música

Andy Bell fala sobre novo álbum do Erasure e lembra de show no Brasil com David Bowie

11/05/2017  |   Por:

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Fotos: Divulgação

O duo britânico Erasure, formado por Andy Bell (vocal) e Vince Clarke (teclados), foi um dos responsáveis pela trilha sonora dançante da década de 1980. Sucessos como “A Little Respect”, “Oh L’amour”, “Stop!”, “Sometimes” e “Star” embalaram as pistas de danças por todo o mundo.

Agora a dupla está de volta com o novo álbum “World Be Gone”, previsto para chegar às lojas no próximo dia 19 de maio. Os singles “Love You To The Sky” e “Still It’s Not Over”, divulgados recentemente, antecipam o que vem por aí.

Tivemos a oportunidade de ouvir o disco antes e conversar com Andy por telefone em um bate-papo franco e descontraído. O cantor estava em casa, em um dia tranquilo e “feliz”: “O meu dia está sendo amável. Está bastante ensolarado e fresco em Londres. Passei um tempo deitado, tive meu café da manhã, então estou feliz (risos)”.

O vocalista comentou sobre o início de carreira do Erasure, a forma de compor com Vince, novo disco, projetos e ainda relembrou das passagens pelo Brasil, incluindo o “fiasco” de tocar em São Paulo ao lado de David Bowie, no extinto festival Close-up Planet, em 1997. Confira a entrevista exclusiva a seguir.

LIGADO À MÚSICA: Tive a oportunidade de ouvir o novo álbum e gostei bastante, parabéns! Uma coisa que notei, é que o álbum definitivamente soa diferente do single previamente divulgado “Love You to the Sky”. Imagino que as pessoas que o tenham escutado estarão esperando por um trabalho mais puxado para o pop/synthpop, mas o disco soa muito mais melódico e melancólico. Qual foi a inspiração de você e de Vince para compor esse álbum?

ANDY BELL: Muito obrigado! Bom, eu acho que você escreve o primeiro single como uma primeira impressão de mais fácil digestão, por exemplo, que seja mais fácil de penetrar. Alguns fãs de Erasure gostaram, outros não. A maior parte do álbum, que tínhamos escrito, já era com músicas mais calmas. Eu acho que refletia muito bem com o que eu e Vince pensamos e sentimos. O quanto às vezes ficamos desapontados com o jeito que as coisas andam, parecem que são sempre as mesmas coisas, as mesmas pessoas, tudo sempre igual. Eu acho que quando você está na mídia, você repara nessas coisas. Isso te deixa mais crítico. Você fica meio triste com o jeito que as pessoas manipulam o público em geral. Você não pode os culpar, sabe? Premiações na televisão, sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas celebridades. É meio que uma lavagem cerebral. Eu estive com Vince, quando ele veio para Londres, duas vezes, para compormos e também duas vezes na casa dele, no Brooklin em Nova Iorque. Eu disse para ele que não aguentava mais fazer música pop, sabe, toda essa coisa do show business, com todas as coisas sendo escondidas pelas grandes corporações. Eu sei que sempre foi assim, eu sei. Mas parece que na década de 80 as pessoas precisavam ter alguma personalidade para conseguir algo, você tinha as suas visões políticas e etc. Agora tudo não passa de um jogo, parece que as pessoas são marionetes. Mas talvez isso tenha a ver com a minha idade, os pensamentos mudam, as pessoas mudam. Eu disse que não aguentava mais e que queria acabar com isso. Então Vince ficou indignado: “Espero com isso você não queira dizer o grupo comigo”. Então eu disse que obviamente não (risos). Mas o disco é sobre isso basicamente. É muito reflexivo no sentido de como nos sentimos em todo esse meio, sabe? Espero que não vejam as músicas como algo depressivo e sim como algo esperançoso na verdade, sobre acreditar, seguir em frente e acreditar que as coisas tendem sempre a melhorar.

LIGADO À MÚSICA: Provavelmente a minha música favorita seja a faixa-título. Estive escutando e liricamente, a forma com que você canta, rezando e perguntando para algum Deus se ainda somos amados ou se estamos esquecidos. Eu realmente achei uma música bem bonita. E você, possui alguma favorita no disco?

ANDY BELL: A minha favorita também é “World Be Gone” e tenho que confessar que vivo um pouco de uma relação de amor e ódio com “Oh What A World”. Eu realmente gosto dessa, mas porque eu acho que é uma faixa muito experimental para o Erasure, parece uma versão de alguma faixa do Eminem, entende? Também acho que temos algumas lindas baladas no disco. A música que eu menos gosto provavelmente seja a última, “Just a Little Love”, que é a mais pop do álbum.

LIGADO À MÚSICA: Com toda certeza, para mim ela e “Love You To The Sky” as duas faixas “mais Erasure” do álbum.

ANDY BELL: Sim. Elas soam como o velho e glamoroso Erasure. Nós chegamos a conclusão que deveríamos colocar alguma coisa no disco para que os fãs pudessem nos reconhecer, entende?

LIGADO À MÚSICA: Claramente. Bom, agora falando um pouco sobre o processo de composição. Você e Vince estão juntos por mais de 30 anos. A maneira que vocês compõem as faixas mudaram de alguma forma durante esse tempo imagino, certo? Como funcionava as coisas na época e como estão agora?

ANDY BELL: Bem, no começo de tudo, digo, no nosso primeiro álbum, eu era um vocalista contratado. Eu me sentia como se tivesse que me comportar, sabe? Fazer o meu melhor e ver como as coisas saíam. Eu era bastante inexperiente, mas Vince foi bastante generoso e paciente. Nosso primeiro álbum não foi um daqueles grandes hits em outros países e imaginei que fosse ser demitido, mas Vince sempre me apoiou. Nós começamos a excursionar e a tocar no máximo de lugares que podíamos. Vince foi muito generoso. No nosso primeiro trabalho eu só trouxe algumas palavras e trechos para “Oh, L’Amour” e Vince me deu 50% dos direitos da composição. Entende? Apenas por algumas palavras. Ele é um cara realmente maravilhoso. Minha verdadeira colaboração no processo de composição foi acontecer em “Sometimes” (1986), para o álbum “The Circus”, e esse foi nosso primeiro hit. Vince realmente ficou feliz em poder começar a contar comigo para escrever e desde então tem sido dessa maneira. Durante praticamente todo esse tempo tem sido assim, temos guitarras e pianos, tudo bem tradicional. Eu apelidaria Vince como um “coletor de acordes”. Ele está sempre tentando combinações diferentes de notas, sempre buscando aprender mais. Então nos juntamos, ele os toca para mim e eu canto tudo do fundo do meu coração, vejo as melodias que saem e gravamos tudo o que for possível. Posso dizer que começamos a mudar um pouco as coisas nos dois últimos álbuns. Desde o último álbum que lançamos, “The Violet Flame”, e nesse que está para sair, nós estamos escrevendo diretamente para o synthpop e não com guitarras e pianos. As cordas possuem um tipo de som que ultimamente tem me remetido à música folk, eu sempre caio no mesmo tipo de som folk e começou a ficar difícil de quebrar esse hábito. Eu acho que explorando diretamente as melodias do synthpop, as coisas ficam muito mais inspiradoras, eu me sinto muito mais inspirado, com outro tipo de som. Então, nós fizemos exatamente a mesma coisa para o último disco. Apesar de tudo, “The Violet Flame” soa mais dance, diferentemente desse de agora. Pra falar a verdade, quando Vince apareceu com as faixas, eu já senti que elas estavam completas, tive que deixá-las de lado por um grande tempo, não consegui trabalhar em cima. A melodia estava tão completa que parecia que poderíamos lançar a trilha sonora de um filme, sabe? O instrumental falava por si só. Algum tempo depois, eu e Vince nos reunimos em um estúdio e ele começou a me cantar as melodias. Posso dizer que ele foi de grande inspiração para mim nesse álbum.

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LIGADO À MÚSICA: Quando você senta para compor com Vince, as coisas são diferentes do que quando você senta para compor um outro trabalho ou um álbum solo, por exemplo?

ANDY BELL: Eu acho que sim. Eu acho que com Vince é mais íntimo, porque nós nos conhecemos muito bem. Sabe, ficamos algum tempo sem ver um ao outro, por um ano ou um ano e meio e quando estamos juntos é como conhecer um ao outro novamente, chegando até mesmo a ficar envergonhados. Seria como sair com a sua ex-namorada que você voltou a encontrar. Você se sente realmente envergonhado. É como se você tivesse que se abrir novamente. Compor é algo bastante pessoal. Então nós temos um copo de cerveja ou de vinho, até mesmo de chá, conversamos por algumas horas e então começamos. Pra realmente começarmos a andar na mesma reta das composições, demora três ou quatro músicas.

LIGADO À MÚSICA: Com o álbum finalizado, vocês já estão começando os ensaios?

ANDY BELL: Não, ainda não começamos não. Nós fizemos o repertório juntos e ficou maravilhoso. Todos os hits do Erasure adicionados à algumas faixas do novo álbum. Foi bem difícil escolher, dá pra imaginar? Tipo, de todas as faixas do Erasure, devemos ter mais de três mil músicas (risos).

LIGADO À MÚSICA: Voltando um pouco para o passado. O Erasure veio para a América do Sul em 1997, tocando junto com No Doubt e David Bowie. O que você lembra dessa turnê? Alguma história que você poderia nos contar?

ANDY BELL: Meu, isso foi muito louco. Tudo acontecendo junto, de uma vez. Me lembro de estarmos tocando em São Paulo e foi um pouco estranho, a plateia ficava gritando “Puta, puta, puta!”, sabe? Fui descobrir que isso queria dizer gay, vagabunda, algo do tipo (risos). As pessoas estavam gritando, tirando as calças e mostrando suas bundas, jogando muitas coisas no palco, então pra mim foi um pouco assustador. Eu só conseguia pensar: “Fala sério, vocês estão aqui para ver o David Bowie. O maior ditador de moda, o maior transgênero que vocês vão encontrar”.

LIGADO À MÚSICA: Com certeza, Bowie era a maior “puta” do dia (risos).

ANDY BELL: Exato! “Por que estão fazendo isso apenas comigo?” (risos). Depois do show eu fiquei pensando, talvez David tenha nos colocado lá para receber toda a hostilidade da plateia antes dele entrar. Estou brincando. Acho que éramos a banda errada no lugar errado, a plateia era roqueira demais, com No Doubt e as outras bandas. Nós éramos a única banda de synthpop e então nos tornamos um alvo fácil da plateia. Mas foi uma experiência bem legal excursionar na América do Sul. Mas mesmo assim é estranho, já que David Bowie em sua fase anos 90 já estava bem longe de ser apenas rock, com seus álbuns dance e tudo mais.

LIGADO À MÚSICA: Pois é. Desde então, vocês voltaram apenas em 2011. Existem planos de voltar para a América do Sul para divulgar o “World Be Gone”?

ANDY BELL: Ainda não, mas vamos marcar mais shows para o ano que vem, em 2018 e realmente espero que passemos por aí. Eu amo ir para a América do Sul, principalmente Brasil e Argentina, sempre temos boas experiencias por aí. Eu amo os brasileiros e os argentinos.

LIGADO À MÚSICA: Bom, algumas perguntas rápidas. Se você pudesse escolher um artista para trabalhar junto, quem seria?

ANDY BELL: Isso muda de tempo em tempo, mas acho que se tivesse que escolher agora seria Annie Lennox.

LIGADO À MÚSICA: Legal! E se você tivesse que escolher um álbum que mudou a sua vida, qual você escolheria?

ANDY BELL: Hummm, um álbum que mudou a minha vida talvez seja o “Parallel Lines”, do Blondie.

LIGADO À MÚSICA: Falando em álbum, sei que vocês ainda nem lançaram o novo do Erasure direito, mas você já possui planos de lançar um possível novo álbum solo?

ANDY BELL: No momento eu estou com esse projeto chamado Torsten e já estamos trabalhando no terceiro álbum. Provavelmente no ano que vem ele seja lançado.

LIGADO À MÚSICA: Bom, agora pra finalizar. Já que em Londres já está a tarde. Você já tem em mente o que vai fazer de janta hoje? (risos).

ANDY BELL: Meu Deus, o que eu terei na janta? Não sei. Nessa manhã eu comi dois ovos com marshmallows, como um tipo de salada sabe? Mas hoje à noite, não sei… Bom, ontem eu comprei bifes de avestruz congelados, então provavelmente seja isso (risos).

Antes de encerrar o bate-papo agradável, Andy falou de sua paixão por cachorros, especialmente por Angel. O britânico usa uma imagem do animal em seu contato: “Ele é o Angel, ele mora em Miami. Ele é o bebê Angel, que vive com meu parceiro em Miami. Ele é o cachorro mais sensível que você pode conhecer na vida.

LIGADO À MÚSICA: Sério? Ele tem uma cara de bravo.

ANDY BELL: Não, ele é muito gentil, carinhoso e envergonhado. Ele se esconde dos outros cachorros. Quando ele encontra algum ele se esconde atrás do seu dono. Ele é muito envergonhado.

LIGADO À MÚSICA: Que engraçado. Eu tenho uma também, um beagle. Ela se chama Kiara, em homenagem ao “Rei Leão 2”.

ANDY BELL: Ah, quanto amor, isso é lindo. Eu acho que cachorros são muito mais amáveis que os humanos. Possuem muito mais amor do que nós.

LIGADO À MÚSICA: Bom, gostaríamos de te agradecer mais uma vez pela oportunidade. Estamos aguardando o Erasure aqui pelo Brasil.

ANDY BELL: Eu que agradeço!

Confira a seguir o recado de Andy Bell.