Angra encerra atividades com show memorável no Tokio Marine Hall
Fotos: Reprodução/Érika Beganskas
Uma reunião de sentimentos conflitantes dava o tom do clima entre o público no Tokio Marine Hall, no último domingo (03), para aquela que marcou a despedida do Angra de suas atividades, ao menos, por tempo indeterminado. A pausa na carreira, anunciada em setembro de 2024, chegou com o encerramento da turnê “Temple of Shadows 20th Anniversary Tour – Interlude”, com um show memorável e quase ensurdecedor. A noite contou com as aberturas do Azeroth (Argentina) e do Viper, que deu um tom ainda mais nostálgico para a ocasião.
Os argentinos do Azeroth desembarcaram pela segunda vez no Brasil em poucos meses, visto que já haviam tocado com o Angra em algumas datas no final do ano passado. Com seis discos de estúdio lançados, a banda apresentou para um público ainda pequeno na casa músicas de sua discografia, que combina faixas cantadas em espanhol e inglês. O power metal do quinteto segue uma linha padronizada europeia, muito bem executada. Destaque para faixas como “Beyond Chaos” e “Trails of Destiny”.
Na sequência da noite de celebração, o palco do Tokio Marine Hall foi ocupado pelo Viper, precursor de toda essa cena que revelou ao Brasil e ao mundo bandas e músicos inesquecíveis. A já consolidada atual formação, comandada por Felipe Machado, guitarrista e membro fundador, aproveitou a ocasião para gravar um disco ao vivo e despejou grandes clássicos, como “A Cry From the Edge”, “Soldiers of Sunrise” e “Living for the Night” (com participação de Rafael Bittencourt). Vale a menção também para a emocionante faixa “The Spreading Soul”, executada em homenagem aos fundadores da banda, Andre Matos e Pit Passarell, que faleceram em 2019 e 2024, respectivamente.
Então, o grande momento da noite chegou. Já com a casa totalmente tomada pelo público, às 20h45, as luzes se apagaram. E é aqui que essa não é mais uma simples resenha, porque esse também é um texto para o meu “eu” de 20 anos atrás, que, aos 16 anos de idade, viu seu primeiro show do Angra, no já inexistente Via Funchal, e justamente na abertura da turnê do então recém-lançado “Temple of Shadows”.
Presenciar essa despedida foi muito mais do que ir a um show, foi uma viagem no tempo e nas memórias que criei, nos gostos que desenvolvi e na percepção e importância sobre a música que o Angra gerou em minha vida.
Fabio Lione (voz), Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) subiram ao palco depois de uma introdução repleta de projeções, culminando na abertura do show com “Nothing to Say”, do disco “Holy Land”, um dos maiores clássicos da banda. Sem muita conversa, na sequência vieram “Millennium Sun” (Rebirth) e “Tide of Changes”, do mais recentre trabalho, “Cycles of Pain”.
Logo após essas faixas, Lione anunciou a execução na íntegra do disco “Temple of Shadows”, em comemoração aos 20 anos de seu lançamento. E o que se viu a partir de então foi uma performance visceral, com o público cantando junto todas as músicas.
O bom momento da banda, que em tese pode até contrastar com a ideia da pausa, ficou nítido em cima do palco, com interações entre os membros e um desempenho arrebatador. Eu nunca tinha visto um show do Angra com o som tão alto, quase ensurdecedor, mas bem definido no geral. Destaque para faixas como “Angels and Demons”, “Waiting Silence”, “The Shadow Hunter” e “No Pain for the Dead” – esta última com brilhante participação da cantora Vanessa Moreno. Ao final, “Late Redemption”, sempre marcante, emocionou os fãs e banda, que cantaram em coro os versos gravados por Milton Nascimento.
Com o encerramento do “Temple of Shadows”, todos sabiam que se aproximava o final do show, e com isso, teria início o hiato da banda. É sempre o momento que nenhum fã quer ver, mas que precisa respeitar. Foi então que Rafael Bittencourt, membro fundador do Angra, tomou a palavra e conversou com o público sobre a decisão, citando razões que vão justamente de encontro ao desejo de que, após 13 anos juntos, essa formação volte ainda mais forte e renascida em si. Aliás, essa foi a deixa perfeita para puxar o clássico “Rebirth”, também com participação de Vanessa Moreno.
Na reta final do show, ainda houve tempo para uma homenagem a Ozzy Osbourne, com o cover “No More Tears”. Do primeiro disco do Angra, a faixa-título “Angels Cry” e o clássico “Carry On” somaram-se a “Nova Era”, do álbum “Rebirth”, encerrando assim o show que marca este novo momento na carreira da banda. Um período sabático, mas sem as tradicionais brigas e rupturas de outras épocas.
Provando que é, sim, uma das bandas mais importantes da história do rock e do heavy metal no Brasil, o Angra sai – momentaneamente – de cena, com sua terceira formação tão consolidada e influente quanto as demais.
Que o tempo passe rápido!
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