Angra reúne gerações da banda em espetáculo com 3 horas de duração
Foto: Reprodução/Instagram
Talvez nem o mais otimista fã de Angra poderia imaginar que meses após a tentativa frustrada de hiato, teria a oportunidade de ver na sua frente Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli reunidos com Aquiles Priester, Kiko Loureiro e Edu Falaschi, além de passar por – mais uma – troca de vocalistas na formação atual, saindo Fabio Lione e entrando Alírio Netto. Parece muita coisa, muita informação, mas a impressão é que quem acompanha a banda já encara até com bom humor toda essa “confusão” que sempre habita o Angraverso.
Com ingressos esgotados e fila se formando ainda no fim da tarde, mesmo sob chuva, a banda subiu ao palco do Espaço Unimed, em São Paulo, pontualmente às 21h para uma apresentação que confirmou a alta expectativa do público. A reunião da formação conhecida como “Nova Era”, ao lado da atual configuração, transformou o show do Angra em um encontro de fases que, mais do que nostálgico, se mostrou bem articulado ao longo de três atos. De certa forma natural, a apresentação de ontem foi ainda melhor do que o histórico show no festival Bangers Open Air.
A primeira parte do espetáculo, com a formação atual, manteve, em linhas gerais, o repertório apresentado no final de semana, mas já com uma diferença central: a presença consolidada de Alírio Netto cantando todas as músicas. A abertura com “Nothing to Say” deu início a um bloco voltado aos primeiros discos da banda, com sucessos como “Angels Cry”, “Lisbon”, “Wuthering Heights”, “Carolina IV” e “Make Believe” — esta última, novidade no set list em relação ao show anterior.
A entrada do novo vocalista contribui com a rota que a banda parece querer tomar cada vez mais, apostando nas turnês comemorativas e rememorando discos clássicos. Alírio demonstrou segurança e domínio técnico, além de presença de palco consistente e até mais efusiva em relação aos vocalistas anteriores. Sua performance também marcou o retorno do piano ao vivo, elemento associado à fase de Andre Matos, contribuindo para enriquecer ainda mais os arranjos. As músicas da fase de Fabio Lione, mantidas no set, funcionaram bem em sua voz e reforçaram a impressão de uma transição bem encaminhada. Faixas como “Vidas Secas” e “Tied of Changes” deixaram claro que Netto vai transitar com tranquilidade por todas as fases da banda.
O segundo e mais aguardado ato da noite concentrou a execução completa de “Rebirth”, com a formação “Nova Era” reunida para celebrar os 25 anos do emblemático disco que marcou e formou uma geração inteira de fãs. Com Edu Falaschi mais leve e confortável em comparação à apresentação no Bangers, o bloco ganhou consistência, com destaque em “Heroes of Sand”, “Millennium Sun”, “Unholy Wars” e “Running Alone”. De outros discos desta histórica formação, o set list contemplou “Spread Your Fire”, do “Temple of Shadows”, e “Ego Painted Grey”, do “Aurora Consurgens”, ambas com ótimas execuções.
As performances de Kiko Loureiro e Aquiles Priester também merecem ser ressaltadas. Impecáveis tecnicamente e com uma pegada visceral no palco, os dois não pareciam ter passado tanto tempo longe dos demais parceiros, principalmente no caso de Priester, que deixou o Angra em 2007 e se manteve distante dos remanescentes integrantes.
No terceiro ato, as duas formações passaram a se alternar no palco em diferentes combinações. “Silence and Distance”, do “Holy Land”, apareceu como um dos destaques, também em função da homenagem a Andre Matos, fundador da banda ao lado de Rafael Bittencourt. A faixa reuniu pela primeira vez na noite os vocalistas Alírio Netto e Edu Falaschi, que a partir de então, dividiram os vocais em quase todas as músicas restantes.
Em meio ao grande frisson pela participação dos ex-integrantes no show, houve tempo para Rafael Bittencourt assumir e reafirmar seu protagonismo em um momento mais intimista, ao executar “Reaching Horizons” em voz e violão — uma das primeiras composições de sua carreira utilizadas pelo Angra. Apesar de uma falha técnica no início, a apresentação funcionou como um respiro dentro do show e ampliou a conexão com o público.
Na sequência, “Late Redemption” fez o público cantar em coro os versos gravados por Milton Nascimento. O encerramento veio com “Carry On”, reunindo todos os músicos no palco, incluindo os bateristas Aquiles Priester e Bruno Valverde.
Ao longo da apresentação, algumas falhas técnicas pontuais — principalmente relacionadas a microfones — foram perceptíveis, mas não chegaram a comprometer o andamento do show. Priester e Valverde também fizeram solos de bateria, ocupando tempo considerável no set, que poderia ser destinado à mais músicas, em um show com tamanho conteúdo a ser entregue.
A impressão que fica é que de fato todos os envolvidos na ruptura da formação “Nova Era” chegaram a um denominador comum para estarem juntos, e não falo apenas do lado financeiro, afinal de contas, todos ali são profissionais ao extremo e vivem disso. Mas foi notável para o fã que esses caras não estavam ali só por dinheiro e contratos, havia sim uma sinergia perceptível e uma felicidade notória por estarem juntos celebrando esse momento.
O futuro exato do Angra não parece definido no sentido de novo disco ou material inédito, parece ser clara no momento a intenção em seguir apostando nas reuniões e celebrações, inclusive por novos shows com as participações de Edu Falaschi e Kiko Loureiro, mas sem Aquiles, já estarem marcados no Brasil e no Japão. A banda também volta à Europa no segundo semestre de 2026 para shows de 30 anos do “Holy Land”, nessa ocasião, somente com Kiko Loureiro como convidado.
O que parece é que as portas estão abertas para que se amplie ainda mais esse tipo de espetáculo por parte do grupo. Para uma banda ativa, sempre existe a perspectiva do que será o futuro, mas por ora, não há dúvidas, em meio a todo o caos que possa pairar sob esse universo, há muito legado para ser comemorado e continuado. Essas duas últimas apresentações escancararam com pé na porta o tamanho e a importância dessa banda para o rock e o heavy metal mundial, não só brasileiro. O Angra vive hoje um momento de um merecido mais amplo reconhecimento por toda sua contribuição à música e cabe a quem faz isso acontecer aproveitar, sejam os fãs ou os próprios membros da atual formação e demais fases da banda.
SET LIST:
ATO I – Formação atual: Alírio Netto (voz e piano); Rafael Bittencourt (guitarra); Marcelo Barbosa (guitarra); Felipe Andreoli (baixo); Bruno Valverde (bateria)
1 – Nothing to Say
2 – Angels Cry
3 – Tide of Changes
4 – Lisbon
5 – Vida Seca
6 – Wuthering Heights (Kate Bush)
7 – Carolina IV
8 – Solo de bateria de Bruno Valverde
9 – Make Believe
10 – Waiting Silence
ATO II – Formação Nova Era: Edu Falaschi (voz), Rafael Bittencourt (guitarra), Kiko Loureiro (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Aquiles Priester (bateria)
11 – In Excelsis + Nova Era
12 – Millennium Sun
13 – Acid Rain
14 – Heroes of Sand
15 – Unholy Wars
16 – Rebirth
17 – Solo de bateria de Aquiles Priester
18 – Judgement Day
19 – Running Alone
20 – Bleeding Heart
21 – Ego Painted Grey
22 – Spread Your Fire
ATO III
23 – Reaching Horizons (apenas Rafael Bittencourt)
24 – Silence and Distance (todos exceto Aquiles Priester)
25 – Late Redemption (todos exceto Bruno Valverde)
26 – Unfinished Allegro + Carry On (todos no palco)
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